Você sabe realmente a diferença entre chopp e cerveja?

FonteLivro Cervejas, Brejas e Birras – Autor Mauricio Beltramelli 

Mauricio Beltramelli também é proprietário do Bar Brejas

 

Muita gente vai encher o peito e dizer que sim, sabe: a cerveja é pasteurizada, enquanto o chopp, não.

Cá entre nós, não fique chateado comigo, mas isso é mito. Quer comprovar na própria pele? Tente então chegar em qualquer lugar do mundo, bater no balcão e pedir ao barman: um chope, por favor.

Mesmo na Alemanha, pretensamente a terra natal do chope, e por melhor que seja seu alemão, ninguém vai entender o que você está pedindo.

A palavra chope, ou chopp, deriva da palavra alemã schoppen, a qual por sua vez, teve origem no termo francês chopine, ou chopaine. Em desuso desde o século XIX, o termo alemão significava, no idioma arcaico, não a cerveja pasteurizada, mas uma unidade de volume – algo como meio litro.

O emprego incorreto da palavra germânica provavelmente começou a ser difundido a partir dos primeiros cervejeiros alemães que vieram, no final do século XIX, ajudar a implantar as primeiras cervejarias no Brasil.

É quase certo que os operários brasileiros, analfabetos na língua Goethe, interpretaram como sendo cerveja aquilo que os técnicos alemães lhe pediam quanto estendiam suas canecas dizendo “ein schoppen!”.

Pronto, ficou entendido que a cerveja que saísse diretamente do barril era schoppen ou, como adoramos simplificar, chopp.

A palavra existe apenas no Brasil e continua sendo empregada incorretamente. Em terras patropis, ainda subsiste a ideia de que toda cerveja extraída de um barril através de uma torneira tem de ser chamada de chope.

Ignora-se, todavia, o fato de que quase toda cerveja brasileira, nos dias de hoje, já sai da fábrica pasteurizada, não importando o envasamento – seja em garrafa, lata ou mesmo no barril do que se convencionou chamar de chope. As grandes indústrias cervejeiras utilizam métodos chamados de “flash-pasteurização”, nos quais a cerveja passa por placas térmicas destinadas a eliminar bactérias e conferir à bebida maior estabilidade microbiológica. Detalhe importante: tais procedimentos são adotados antes do envase da cerveja.

Na outra ponta estão aquelas cervejas, sejam importadas ou artesanais brasileiras, que não são pasteurizadas,  uma vez que os cervejeiros decidiram preservar-lhes a plenitude dos aromas e sabores (os quais são parcialmente perdidos quando se pasteuriza a bebida). Ou mesmo as cervejas feitas com fermentos ainda ativos dentro das garrafas de vidro, fica ainda mais bizarro, sob o ponto de vista brasileiro, chamar essas cervejas não pasteurizadas e engarrafadas de chope.

Dessa forma, associar a palavra chope à pasteurização da cerveja é um equívoco que mesmo o tempo, a história, os fatos e a variedade de cervejas à disposição não trataram de corrigir.

No resto do mundo, tem-se a correta noção de que as cervejas cujo envasamento é em barril continuam a ser cervejas. Muda-se o idioma apenas para designar sua extração:

Beer on tap – nos países de língua inglesa

Birra ala spina – na Itália

Bièrre pression – na França

Pinta – em espanhol

Fino ou imperial – dependendo da região de Portugal

E por aí vai, as cervejas extraídas por intermédio de uma torneira, pasteurizadas ou não.

Ah, e na Alemanha peça por uma: Bier von fass ou fassbier !

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FonteLivro Cervejas, Brejas e Birras – Autor Mauricio Beltramelli 

Mauricio Beltramelli também é proprietário do Bar Brejas

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